Diagnóstico do vírus Ebola

Filoviridae. Ebolavirus Fonte: CDC

Filoviridae. Ebolavirus
Fonte: CDC

Um indivíduo que tenha sido infectado recentemente pelo vírus Ebola tem difícil diagnóstico em razão dos sintomas apresentados. Olhos avermelhados e rush cutâneo não são sintomas específicos do vírus e são frequentemente vistos em indivíduos infectados.

Assim que diagnosticado a infecção, o indivíduo deve ser mantido em isolamento e as autoridades notificadas. Amostras de sangue são coletadas e dos testes à seguir são os mais utilizados.

Tabela de diagnostico do Ebola virus

Tabela de diagnostico do Ebola virus

Fonte: http://www.cdc.gov/vhf/ebola/diagnosis/index.html

EBOLA, o vírus que mata 90% dos infectados.

Filoviridae Ebola

Filoviridae. Microscopia eletrônica

A febre hemorrágica causada pelo vírus Ebola, é uma das numerosas febres virais hemorrágicas. Trata-se de uma febre extremamente severa que é frequentemente fatal em humanos e primatas (tais como macacos, gorilas e chimpanzés).

A febre hemorrágica é causada pela infecção do vírus da família Filoviridae, gênero Ebolavirus. Quando a infecção acontece, os sintomas iniciam abruptamente. A primeira espécie de Ebolavirus foi descoberta em 1976 no país que agora é chamado República Democrática do Congo, próximo ao rio Ebola. Desde então, os surtos aparecem esporadicamente.

Existem 5 espécies identificadas do Ebolavirus . Quatro das cinco espécies causam a doença em humanos. Ebola virus (Zaire ebolavirus); Sudan virus (Sudan ebolavirus); Taï Forest virus (Taï Forest ebolavirus, antigamente Côte d’Ivoire ebolavirus); e Bundibugyo virus (Bundibugyo ebolavirus).

O hospedeiro que é reservatório natural dos vírus ainda é desconhecido, porém uma das bases de evidências disponíveis e a natureza de outros vírus similares, são acreditados como uma doença potenciamente zoonótica tendo possivelmente morcegos como hospedeiros primários. Quatro das cinco espécies ocorrem em animais nativos da África.

O hospedeiro de espécies similares é provavelmente associada ao Reston virus, que foram isolados de espécies de macacos cynomolgous, trazidos dos Estados Unidos e Italia vindos das Filipinas.

Como é transmitido?

Quando a infecção acontece, existem diversas maneiras em que o vírus pode ser transmitido:

  • contato direto com o sangue  ou secreções da pessoa contaminada;
  • contato com objetos contaminados por secreções do infectado (por exemplo: colheres, copos…).

 

 

Quais são os sinais e sintomas?

No início os sintomas não são específicos, o que dificulta o diagnóstico.

 

Os sintomas da febre hemorrágica Ebola são tipicamente:

  • febre
  • dor de cabeça
  • dores nas articulações e músculos
  • fraqueza
  • diarréia
  • vômitos
  • dor de estômago
  • perda do apetite

Alguns infectados podem apresentar:

  • rash cutâneo
  • olhos vermelhos
  • soluços
  • tosse
  • garganta inflamada
  • dor no peito
  • dificuldade na respiração
  • dificuldade na deglutição
  • hemorragias dentro e fora do corpo

Os sintomas podem aparecer de 2 a 21 dias após a exposição e tem uma duração de 8 a 10 dias, mais comumente.

 

 

Fonte: http://www.cdc.gov/vhf/ebola/

Onde atua o Biomédico em Reprodução Humana

LOGO BIOMEDICO

O Biomédico que deseje atuar em Reprodução Humana pode desenvolver as seguintes tarefas:

 

  • Atuar em Identificação e Classificação oocitária; Processamento Seminal; Espermograma; Criopreservação Seminal; Classificação embrionária; Criopreservação Embrionária; Biópsia Embrionária e Hatching;
  • Atuar em Embriologia. Realizar a manipulação de gametas (oócitos e espermatozóides) e pré-embriões.

Fonte: http://crbm1.gov.br/atuacao-do-biomedico/

Técnica de Coloração de Papanicolau

Dentro das atribuições do Biomédico, temos a coleta de citologia esfoliativa ou Papanicolau.

O método de Papanicolau utiliza um conjunto de corantes e tem como objetivo a evidenciação das variáveis na morfologia e dos graus de maturidade de  atividade metabólica celular. Esse método se baseia nas ações  de um corante básico (com afinidade pelo núcleo das células: a hematoxilina), um corante ácido (que se combina com o citoplasma das células queratinizadas: orange G) e um corante policromático (que oferece tonalidades de cores diferentes no citoplasma das células: EA-65).

Este método abrange cinco etapas:
• Hidratação: esta etapa requer a reposição, gradual da água das células por meio de banhos alcoólicos de concentrações  decrescentes até  a água destilada;

• Coloração nuclear: as células hidratadas podem agora receber um corante aquoso para corar os núcleos (hematoxilina de Harris).

• Desidratação: para receber corantes alcoólicos citoplasmáticos, devemos agora retirar a água das células com banhos alcoólicos de concentrações crescentes.

• Coloração citoplasmática: nesta etapa, o citoplasma das células é corado pelos corantes Orange G e EA-65, de modo a diferenciar com várias tonalidades o citoplasma das células de acordo com a sua maturidade e metabolismo.

• Desidratação, clarificação e selagem: a água agora deve ser retirada com concentrações alcoólicas crescentes, clarificadas e seladas com meios permanentemente hidrofóbicos.

Fonte: http://www.epsjv.fiocruz.br/upload/d/capitulo_4_vol2.pdf

TÉCNICAS PARA A COLORAÇÃO: Imergir as lâminas em análise em cubas de
coloração contendo as soluções na sequência abaixo discriminadas, devidamente identificadas, respeitando-se o tempo determinado.
CUBA                        Nº                                                                              REATIVO TEMPO
1                                  Etanol a 99%                                                         2 minutos
2                                  Etanol a 70%                                                        2 minutos
3                                  Etanol a 50%                                                        2 minutos
4                                  Água destilada                                                    2 minutos
5                                  HEMATOXILINA DE HARRIS (Nº 1)         45 segundos
6                                  Água corrente                                                    10 minutos
7                                 Etanol a 50%                                                        2 minutos
8                                 Etanol a 70%                                                        2 minutos
9                                 Etanol a 80%                                                        2 minutos
10                              Etanol a 99%                                                         2 minutos
11                              ORANGE G6 (Nº 2)                                             2 minutos
12                              Etanol a 99%                                                         2 minutos
13                              Etanol a 99%                                                         2 minutos
14                              EA-36 (Nº 3)                                                         2 minutos
15                             Etanol a 99%                                                          2 minutos
16                             Etanol a 99%                                                          2 minutos
17                            Etanol a 96%                                                          2 minutos
18                            Xilol                                                                           2 minutos
19                            Xilol                                                                           2 minutos
20                           Montagem com Bálsamo do Canadá.

OBSERVAÇÕES:
O tempo da Hematoxilina de Harris de 45 segundos, nem sempre dá resultado
satisfatório, portanto quando necessário, deverá ser ajustado.
Deve-se eliminar os excessos das soluções quando se passa de uma cuba para
outra, menos na passagem da Hematoxilina para água corrente que deve ser
imediata.
Os corantes devem ser renovados mensalmente.
Os corantes devem ser filtrados regularmente.

São admitidas variações e adaptações durante o processo de coloração.

Cortando o mal pela raiz

Pesquisadores usam proteína de bactéria para remover o vírus HIV escondido no DNA de pacientes com Aids. A estratégia, testada apenas em laboratório, erradica o vírus latente e impede novas infecções, mas ainda não é totalmente segura.

Por: Sofia Moutinho

Publicado em 21/07/2014

Testada em células do cérebro, nova estratégia de terapia genética erradica a infecção latente pelo HIV. Na foto, os vírus (em amarelo) infectam uma célula do sistema imune humano. (foto: National Institutes of Health (NIH))

Testada em células do cérebro, nova estratégia de terapia genética erradica a infecção latente pelo HIV. Na foto, os vírus (em amarelo) infectam uma célula do sistema imune humano. (foto: National Institutes of Health (NIH))

Os medicamentos antirretrovirais têm sido a principal ferramenta de combate à Aids. Segundo o recém-divulgado relatório do Programa das Nações Unidas para Aids(Unaids), até o final de 2012, cerca de 9,7 milhões de pessoas tiveram acesso à terapia e a meta é que 15 milhões de pacientes estejam cobertos até 2015 – atualmente estima-se que haja 16 milhões de pessoas diagnosticadas.

O tratamento farmacológico, no entanto, não se mostrou capaz de eliminar por completo a infecção pelo HIV, pois não age sobre os vírus latentes, que ficam silenciosamente integrados ao DNA humano e podem ser reativados a qualquer momento. Pesquisadores agora se valem de uma proteína bacteriana para fazer ‘microcirurgias’ no genoma e extirpar o vírus invasor.

A proteína usada é a Cas9, responsável pelo ‘sistema imune’ das bactérias. Ela corta fragmentos de material genético de vírus invasores e os incorpora ao DNA bacteriano. Quando a bactéria cruza novamente com o vírus que contém aquela sequência genética, o identifica como inimigo e o ataca. Essa habilidade tem sido aproveitada por pesquisadores para modificar trechos de DNA humano. Acoplada a uma molécula de RNA criada em laboratório que lhe serve como guia até segmentos específicos do genoma, a proteína Cas9 se direcionada a uma sequência de DNA equivalente à representada pelo RNA e a corta fora.

No início do ano, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia (EUA) usaram a Cas9 para modificar o receptor celular CCR5, ao qual o vírus HIV se liga para entrar nas células do sistema imune humano. Com a intervenção, as células de 12 pacientes passaram a ficar resistentes ao HIV, o que impede uma infecção inicial, mas não resolve o problema dos vírus escondidos, já instalados e misturados ao DNA humano.

Hoje, pesquisadores da Universidade Temple (EUA) publicaram um artigo no periódico científico PNAS em que relatam ter usado a Cas9 para atingir diretamente os vírus HIV latentes em células do cérebro in vitro. Acoplada a um pedaço de RNA guia, a proteína ‘deletou’ partes importantes do vírus, erradicando-o do genoma humano e impossibilitando a sua reativação – tudo isso sem prejudicar o DNA do paciente, que foi reparado pelo próprio organismo.

A proteína Cas09 é acoplada a uma tira da RNA que serve como guia e se une apenas a uma sequência de DNA equivalente à do RNA. Quando a sequência é encontrada, a Cas9 abre a dupla hélice do DNA e corta fora o material genético viral. (montagem: Sofia Moutinho)

A proteína Cas09 é acoplada a uma tira da RNA que serve como guia e se une apenas a uma sequência de DNA equivalente à do RNA. Quando a sequência é encontrada, a Cas9 abre a dupla hélice do DNA e corta fora o material genético viral. (montagem: Sofia Moutinho)

 

Segundo os cientistas, a estratégia, ainda não testada em pacientes, funciona não só para acabar com uma infecção já existente por HIV, como também para evitar novas. Ao menor sinal de tentativa de integração do material genético do vírus HIV com o DNA humano, a proteína Cas9 entra em ação destruindo o invasor.

“Podemos explorar vários sistemas e rotas para aplicar a Cas9 em indivíduos já infectados com o HIV e também para imunizar indivíduos de grupos de risco”, dizem os autores no artigo da PNAS.

Promissora, mas não prática

O geneticista Renato Santana, que conduz pesquisas de combate ao HIV com terapia genética na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pontua que a nova abordagem é “extremamente relevante e de fácil manipulação no laboratório”, mas ressalta que ainda é necessário desenvolver métodos eficientes de aplicação da estratégia nos pacientes.

Uma das possibilidades seria injetar a proteína Cas9 acoplada ao RNA diretamente na medula óssea, importante reservatório de vírus latentes e fábrica de células sanguíneas. Mas o procedimento não é trivial.

“A entrega da Cas9 nas células ainda é complicada; a repopulação da medula é um procedimento custoso, que requer muito cuidado e não é viável como estratégia de tratamento de grande abrangência entre a população”, pondera Santana. “A abordagem pode ser boa a longo termo, mas, a curto prazo, as estratégias farmacológicas ainda são mais plausíveis.”

Santana: “A abordagem pode ser boa a longo termo, mas, a curto prazo, as estratégias farmacológicas ainda são mais plausíveis”

O pesquisador nota ainda que, antes de se pensar no uso dessa terapia, é preciso garantir que a estratégia seja segura. Um dos perigos é que a Cas9 corte não só o genoma viral, mas sequências relevantes do DNA do paciente. “Várias partes do nosso genoma são oriundas de vírus inseridos em nossas células há milhares de anos e elas controlam processos relevantes ao desenvolvimento celular, como o transporte de colesterol e a formação da placenta”, explica Santana.

Para o pesquisador, as estratégias que miram na reprogramação das células para torná-las resistentes ao HIV são mais seguras por enquanto. Em seu laboratório, Santana e colegas trabalham nessa linha e desenvolvem uma abordagem que impede a entrada do HIV nas células e, ao mesmo tempo, destrói os vírus que conseguirem entrar. “Estamos tentando tornar as células duplamente resistentes”, diz Santana. “Modificamos o receptor CCR5 para que o vírus não entre e, se ele escapar, uma proteína entra em ação e modifica o vírus, tornando-o inativo.”

Por outro lado, o grupo da Universidade Temple destaca que sua pesquisa com a Cas9 está em plena ascensão e evolui rapidamente, de modo que a abordagem proposta tende a ficar cada vez mais próxima da aplicação clínica. “A edição genômica por Cas9 tem mostrado uma eficácia promissora e suas propriedades podem fornecer um caminho viável para uma cura permanente da Aids e outros vírus patogênicos”, concluem os pesquisadores no artigo da PNAS.

Segundo o novo relatório da Unaids, estima-se que existam 35 milhões de pessoas infectadas com HIV no mundo, das quais 19 milhões não foram diagnosticadas. Apesar de apresentar queda global, a taxa de novas infecções pelo vírus da Aids aumentou 11% no Brasil entre 2005 e 2013, impulsionada principalmente pela maior transmissão da doença entre indivíduos de grupos de risco, como homens homossexuais.

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

Ganhos recíprocos – Virulência do protozoário Toxoplasma gondii fortaleceu defesas de seu principal hospedeiro

© LATINSTOCK / MOREDUN ANIMAL HEALTH LTD / SCIENCE PHOTO LIBRARY / SPL DC Exemplares do protozoário Toxoplasma gondii (magenta) em célula do fígado

© LATINSTOCK / MOREDUN ANIMAL HEALTH LTD / SCIENCE PHOTO LIBRARY / SPL DC
Exemplares do protozoário Toxoplasma gondii (magenta) em célula do fígado

 

Pesquisadores de Minas Gerais identificaram um possível mecanismo de reação do organismo de roedores aos ataques do protozoário Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose. Sob a coordenação do imunologista Ricardo Gazzinelli, eles verificaram que a resposta eficiente do sistema de defesa de camundongos à infecção por toxoplasma depende da ação orquestrada de quatro proteínas produzidas pelas células dendríticas, as primeiras células do sistema imune a entrar em contato com o parasita.

Essas quatro proteínas pertencem à família dos toll-like receptors (TLRs), moléculas expressas pelas células de defesa que identificam pedaços de microrganismos invasores. Elas compõem um mecanismo primordial de proteção bastante preservado do ponto de vista evolutivo — são encontradas em peixes, aves e mamíferos. “Esses receptores são muito específicos no reconhecimento de moléculas associadas a agentes infecciosos que ameaçam a sobrevivência dos organismos hospedeiros”, explica Gazzinelli, pesquisador do Centro de Pesquisas René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Minas Gerais.

Duas dessas proteínas, a TLR-7 e a TLR-9, já eram bem conhecidas dos imunologistas. Elas detectam diferentes microrganismos ao reconhecer trechos de seu material genético. Em 2013, Gazzinelli e Warrison Andrade, então seu aluno de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), verificaram que essas proteínas agem em conjunto com outras duas mais seletivas do mesmo grupo: a TLR-11 e a TLR-12. Até hoje encontrados só em roedores, os principais hospedeiros intermediários do toxoplasma, esses receptores detectam a profilina, proteína essencial para a motilidade do protozoário e sua capacidade de invadir as células do hospedeiro, em cujo interior se multiplica. Sempre que identificam a profilina, as toll-like receptors 11 e 12 iniciam uma reação em cadeia que termina com a produção das proteínas immunity-related GTPase, ou IRGs, que destroem as vesículas em que os protozoários se alojam.

A existência de proteínas especializadas em identificar o toxoplasma é, para os pesquisadores, uma evidência de como a exposição ao protozoário por milênios pode ter ajudado a moldar o sistema de defesa do hospedeiro, de modo que ambos vivam em relativa harmonia. Surgidos de mutações no material genético do hospedeiro, os genes que codificam as TLR-11 e 12 permitiram aos roedores sobreviver à infecção por toxoplasma ao eliminar a maior parte dos parasitas. E não foram de todo ruim para o protozoário, que não é eliminado por completo.

“Esse equilíbrio evita que o toxoplasma mate seu hospedeiro intermediário, aumentando as chances do parasita de alcançar o organismo de gatos e outros felinos, seus hospedeiros definitivos”, explica Gazzinelli. A evolução das proteínas TLR ocorreu em milhões de anos. Hoje cada proteína dessa família exerce função semelhante, mas com especificidade distinta. “Cada proteína da família TLR reconhece uma molécula específica e bem preservada dos microrganismos patogênicos”, conta o pesquisador. “Por desempenharem função importante no combate aos microrganismos invasores, elas se tornaram altamente conservadas.” No caso do toxoplasma, o reconhecimento da profilina pelas TLR-11 e 12 dos roedores gerou um equilíbrio estável entre o parasita e seu hospedeiro.

Manipular e sobreviver
Ao infectar os roedores, o toxoplasma é cercado por células de defesa, que eliminam a maior parte dos parasitas. Os sobreviventes se instalam na forma de cistos, em geral nos músculos e no cérebro do hospedeiro. Estudos recentes sugerem que, no cérebro, o parasita altere o comportamento de roedores, fazendo-os perder o medo dos gatos. Segundo os pesquisadores, essa é uma espécie de manipulação por meio da qual o toxoplasma aumenta suas chances de perpetuação, uma vez que só completa seu ciclo reprodutivo no intestino dos felinos.

Já a evolução das proteínas IRGs segue um modelo distinto, baseado em um equilíbrio instável, no qual o hospedeiro desenvolve mecanismos de defesa mais eficientes contra o parasita ao mesmo tempo que o protozoário aprimora sua capacidade de escapar da resposta imune. Experimentos feitos por pesquisadores da Alemanha e de Portugal mostraram um exemplo dessa competição, que leva a um processo evolutivo mais rápido. Linhagens mais agressivas do toxoplasma neutralizam a ação das proteínas IRGs, que deveriam destruí-las. Mas, por razão ainda desconhecida, essa neutralização só ocorreu em camundongos criados em laboratório. As cepas mais agressivas do protozoário não interromperam a ação dessas proteínas em roedores silvestres, que têm maior diversidade de IRGs.

Não se sabe por que muitas espécies não têm os genes das IRGs. Uma hipótese é que manter um sistema de IRGs eficientes seria custoso para o hospedeiro, razão por que teriam desaparecido de vários vertebrados.

O mais interessante, segundo Gazzinelli, é que essa evolução combinada de estratégias de ataque e defesa são fundamentais para ambos os organismos serem bem-sucedidos na natureza. Esse fenômeno, a coevolução, se dá pela pressão de seleção à qual parasita e hospedeiro são submetidos. “Em termos práticos”, diz o pesquisador, “o toxoplasma evolui para infectar o hospedeiro, enquanto o hospedeiro evolui para neutralizar as adaptações do protozoário”. Esse processo é conhecido como coevolução rainha vermelha, em referência ao livro de Lewis Carrol Alice através do Espelho. Nele, a rainha diz a Alice: “Aqui é preciso correr tanto quanto se pode para ficar no mesmo lugar”.

O protozoário pode chegar ao organismo humano pelo consumo de água e alimentos (em geral carne crua ou malpassada) contaminados com ovos do parasita. Estima-se que metade da população brasileira — e um terço da mundial — esteja infectada. Disperso por fezes de animais domésticos, o protozoário assume sua forma ativa no organismo de pessoas com sistema imune debilitado e em grávidas, podendo contaminar o feto e até matá-lo. Apesar disso, o ser humano é considerado um hospedeiro acidental.

Até onde se sabe, as células de defesa dos seres humanos e de outros mamíferos não produzem os dois receptores que reforçam as barreiras dos roedores contra o toxoplasma. “Os seres humanos”, diz Gazzinelli, “podem ter desenvolvido outros receptores que favoreçam o controle do protozoário”.

Artigos científicos
GAZZINELLI, R. T. et alInnate sensing of Toxoplasma gondii: an evolutionary tale of mice, cats and menCell Host & Microbe. v. 15, n. 2, p. 132-38. fev. 2014.
ANDRADE, W. A. et alCombined action of nucleic acid-sensing Toll-like Receptors and TLR11/TLR12 heterodimers Imparts resistance to Toxoplasma gondii in miceCell Host & Microbe, v. 13, n. 1, p. 42-53. jan. 2013.

 

 

Fonte: Revista Pesquisa Fapesp. Edição 221. Julho2014